Texts

2008  Complicity (about Crystallus Capillus)

By Clarissa Diniz

 If the melting pot of culture has been noted and discussed for a while now, in his performance Crystallus Capillus, João Manoel Feliciano does not deny this phenomenon. For hundreds of minutes, the artist awaits, in slow silence, the melting of the blocks of ice that surround his long locks of hair, creating metaphors of the uninterrupted process of the transience of life, and adding his poetic contribution to the world-wide discussion of this.

His living body heats the ice, which then cools down, revealing a relationship of interdependence.  In the interaction established between the artist and the blocks of ice and in spite of his signs of exhaustion that affect it – trembling, tiredness, numbness –, what becomes apparent is their inter-connectedness amidst the chaos. With apparent spontaneity, human and natural forms, normally oblivious to each other, endure slow processes, which, despite limited  impact, go on investing in the continuity of small metamorphoses – uninterrupted for relatively long periods.

For an hour and a half, even the hardest parts of ice melt and slip away, moved by the  complicity that emerges from this set-up, the truth of which brings warmth to all spectators, left dumbstruck by the potential of a silent and languid chaos.

Clarissa Diniz (Recife, 1985) is curator and art critic. Editor of Tatuí Magazine (https://issuu.com/tatui), curates today, along with Paulo Herkenhoff, the Rio Art Museum

 

2008

 

Praise for the Strength of  Fragility

By Maria do Carmo Nino

“Proud man…..most ignorant of what he is most assured, his glassy essence.”

W. Shakespeare, in Measure for Measure

 

In what constitutes the human realm of the imagination, at a social level, we find factors influenced by exchanges with anthropology, in which attitudes towards daily life, produced in the relations which occur in a given social context, tend to recur in several cultural moments, although remaining with peculiar representation in their respective spatial and temporal perspectives.

In his various photographic series, known as Collum Capillus, Crystallus Capillus and Viola Capillus, in addition to the video Barca Capillus, the artist João Manoel Feliciano is physically compromised. On chosing hair as a link between the images, he evokes – wittingly or otherwise – the mythical figure of Samson who is anchored in our imaginary world as a reminder of the constant duel between strength and fragility, a character who unites in his being factors in which the mixture between what appears to us initially as diametrically opposed elements becomes more and more diluted as we reflect on the subject.

The conflict in the relation strength-fragility currently has representations in several social fields, which tend to elect as old masters whatever relates to order and strength and  calculated productivity, in detriment to vulnerability, playfulness and uselessness.

Nonetheless, art, in its range of possible manifestations, appears as a privileged form of making us look at a new order of values. Adopting a stance against the current of the dominant ideology, it makes us reconsider these factors under another light. In reality, throughout its history, art seems constantly to have confronted us, given the undeniable factor of seduction which constitutes the emotion provoked by vulnerability. This appears as the great strength that catalyses all beauty on allowing us the outlet of feelings, and artists are left with the role of making us reflect on the need to preserve it, to recognize it as our  passport, as João Manoel implicitly makes us perceive with his praise to the strength of fragility.

Given how exposed we are on a daily basis to both physical and mental dangers, and how compelled we are to struggle in a world of insane competition; if our essence is of glass, as Shakespeare reminds us, there is an urgent need for us to recognize that it is in fragility that we find ourselves  united to each other.

About Maria do Carmo Nino

Graduate in Architecture from the Federal University of Pernambuco (1980) and a doctorate in Doctorate in Arts Plastiques et Sciences from l Art – Université Paris 1 (Panthéon-Sorbonne) (1995). He is currently an adjunct professor at the Federal University of Pernambuco. She has experience in the field of Arts, with emphasis in Photography, acting mainly in the following subjects: contemporary art, photography, art history and criticism of art, cinema and literature
Information collected from Lattes on 1/15/2017

 

Marisa Flórido Cesar  

 

Barca capillus

 

O corpo é medida e suporte na obra de João Manoel Feliciano. Em geral, o artista submete o próprio corpo a gestos repetitivos e cotidianos, experimenta-o no limite da resistência, na desmedida do inesperado, no desafio da superação. Tanto nas performances como nas séries fotográficas Crystallus capillusCollum capillusViola capillus e no vídeo Barca capillus, é seu cabelo que protagoniza os trabalhos e relaciona as imagens. Em Crystallus capillus, anéis de gelo são presos às tranças do cabelo (dreadlocks) do artista, que permanece sentado em um banco aguardando o total derretimento o gelo. Em silêncio diante de sua audiência, o artista vai lentamente mostrando seu esgotamento: os músculos sentem as dormências da paralisia e do choque de temperaturas, o corpo treme esfriado pela água que desce de suas tranças, a respiração acelera. Em Barca capillus, vemos o artista no empenho de puxar um barco com suas tranças negras no mar de Olinda, em direção à margem, sem jamais alcançá-la. Fonte de preconceitos, o cabelo do negro é convertido ali em força e poder, em afirmação e esperança. Com um tom mais melancólico, como um fragmento disperso, errante, náufrago, dá-se o embate entre isolamento e liberdade, aprisionamento e resistência, poder e submissão. Mas o lugar do desejo é a margem sem lugar, um horizonte qualquer. Se nos remete à escravidão e ao exílio, aos navios negreiros que cruzaram o Atlântico, também podemos pensar em um Sísifo brasileiro, que desafia o destino e o lugar que lhe foi determinado (por deuses ou por homens) e persevera em direção a um horizonte talvez inalcançável. A partir de Pernambuco, Brasil, Hemisfério Sul, Barca capillus se coloca como uma alegoria do desejo humano de liberdade. Mais do que isso, em sua singularidade irredutível, em sua absoluta e completa solidão – voltada ao silêncio e à insularidade, à insignificância dos gestos repetidos e banais –, o que surge no horizonte do sensível é a potência universal contida em cada pequeno “seixo levado pelo mar” e desprendido do continente: o rosto e a voz da humanidade.

 

*** “seixo levado pelo mar” é uma referência à epígrafe do texto A imagem da humanidade que está no livro NÓS, O OUTRO, O DISTANTE

Nenhum homem é uma ilha, completo em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse o solar de teu amigo ou o teu próprio: a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade. E por isso, nunca procures saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.

(John Donne. Meditações XVII)

Marisa Florido Cesar
Graduated in Architecture and Urbanism from the Federal University of Rio de Janeiro (1984); Master’s degree in Visual Arts from the Federal University of Rio de Janeiro (2002) and PhD in Visual Arts from the Federal University of Rio de Janeiro (2006). He is currently an adjunct professor at the State University of Rio de Janeiro. He has experience in Arts, with an emphasis on Art History, Art Criticism and curatorship, working mainly in the following subjects: visual arts, history and art theory, contemporary art, Brazilian art.
Information collected from Lattes on 1/24/2017

 

João Manoel Feliciano

Recife, Brasil. 1978

Representa de manera elocuente esta era de la post-publicidad, en la que el artista huye del

acoso estrepitoso de consignas para hacer un viaje interior. Repara así en la rareza del ser

humano como existencia en el cosmos y no busca un soporte exterior para expresar sus

sentimientos, usa su propio cuerpo. Joao Manoel Feliciano revisa el mito y se ve a sí mismo

como un Sísifo que empuja la piedra en un esfuerzo constante, como lo definía Albert

Camus, tan perseverante como inutil. Esto se aprecia cuando se miran sus imágenes, en las

que tira de una barca, afanándose en llegar a un destino pedregoso, inerte, esteril. Construye

así una metáfora del quehacer de la humanidad. Salta una alarma cuando aparece con una

campana por cabeza o cuando se muestra enfrentado a los dientes de una sierra dispuesta a

cercenar su cuerpo. Sospecha el autor que no seremos más que el polvo estelar del que

venimos, como si un sentimiento intenso le abstrayera y le marcara la incapacidad de

alcanzar la eternidad.

Sobre esta idea construye sus imágenes este artista brasileño que la poesía hace universal.

También revisa la historia del arte, reverencia al surrealismo para añadirle magia y trabaja el

concepto, como buen hijo de su tiempo, para mostrar un mundo personal que fije en esta

época una impronta digna, una crónica amable y dura a la vez. Es lo que reflejan un buen

número de exposiciónes que ha ido firmando desde hace ya una década.

* By journalist and Spanish critic of art Mariano F. Sánchez. 2013